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Escolha poder escolher

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Nasci e vivi até os 18 anos em uma cidade pequena, sob condições financeiras difíceis, em um bairro afastado da cidade. Amo ter podido brincar na rua até tarde livremente, ter tido a “minha árvore”, onde passava muito tempo, amigos que guardo até hoje comigo e passado por experiências que constituem a minha personalidade. Mais da metade da minha vida ainda está lá.

Nunca sofri por não ter dinheiro. Àquela época, por mais que a barra fosse difícil, não fazia diferença; o que me preenchia e me esvaziava estava condicionado aos dias bons e aos dias ruins.

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Meu cantinho

Hoje estou com vontade de estar em casa. Deve ser o tempo frio. Só eu, meus pensamentos  e o transbordamento que eles podem ocasionar. Eu os seguro demais, eu sei. Eles ficam ali no espaço, voando no espaço fechado da minha timidez ou mesmo mudando diariamente.

Eu queria poder me concentrar mais neles, fluir neles, e não tomando a minha mente por temas externos, só cuidar do íntimo, do que fica lá abandonado gritando para atrair minha atenção.

Estes impulsos de querer cuidar mais da alma aparecem hoje em dia com mais frequência. Às vezes penso que pode ser o tempo, mas na verdade, acho que é mais uma revolta por me dar tanto a temas que quase sempre não preenchem minhas emoções.

O bombardeamento de informação, o modelo de produção que nos deixa quase que constantemente conectados e o padrão de vida, que nos exige mais cuidados e mais tempo, levam quase toda a energia que deveria estar concentrada nos anseios humanos individuais e coletivos.

A conectividade não necessariamente significa coletividade.

Dia da caça, dia do caçador

Quando se acostuma a ficar nos bastidores, fazendo a ponte entre instituições e imprensa, é difícil ser notícia. Mas este dia foi muito interessante, portanto quero compartilhar aqui.

A visita ao Acre para produzir conteúdo dedicado à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável – Rio+20 foi mais que uma missão da profissão; pois me proporcionou uma nova forma de enxergar a população que vive na floresta amazônica.

Eu já conhecia outros estados da Região Norte, já fui a comunidades indígenas, já passei de barco pelo belo Rio Negro, mas a realidade dos seringueiros é bem diferente. É por isso que quando se fala em políticas de desenvolvimento para a Região Norte, não se pode tratá-la como uma área uniforme, por mais que haja semelhanças.

A Agência de Notícias do Estado do Acre acabou publicando matéria sobre minha visita, e outros sites replicaram a nota. Uma parte desta experiência fantástica pode ser conferida aqui.

A Lapa e o Circo Voador

Quem não voa por lá é porque tem alma de chumbo

Tudo começa com os arcos. Enormes, suntuosos, velhos e marcados pelo tempo. A brancura manchada pela maresia e fuligem do bondinho de Santa Tereza, que passa por cima. Parece que vai cair. De fato, o bondinho está tirando um descanso para voltar logo.

Mas são os arcos. Ah, os arcos por onde passam milhares, milhões de pessoas por dia, e por noite. A partir deles surge um mundo diferente e que faz brotar uma existência interessante, inundada de curiosidade que faz apenas apertar os passos para desvendar o que aquelas ruas representam e são.

Eis que lá se entende a liberdade do ir e vir, do sorriso aberto, da alma leve para entrecortar a multidão. Lá se entende a fluidez das notas musicais do samba e também a força de nossos ancestrais. Os ritmos, cores e cheiros compõem um cenário caótico, que se organiza na medida em que se abre o olhar para ele. O caos está na cabeça de quem assiste e é necessária uma reorganização instantânea para entendes com as coisas fluem por lá.

A boemia passou longe da rua do arco. Lá existe muito mais que isso. Como diria Romeu, “o caos uniforme das formas decadentes”, num espetáculo de civilidade e respeito. Tudo flui, tudo funciona como deveria ser. Há espaço para tudo e todos, numa composição harmônica. As ruas escuras, movimentadas e barulhentas abrigam um rio de gente que faz fila para apreciar  o que lá tem de melhor: o samba. É necessário ter a mente feliz para assimilar samba. Não por acaso, não há notícias de compositores de samba tristes.

É no bumbo e no cavaquinho que o coração pulsa mais forte, e no sorriso generalizado o público parece voar junto. Quem não voa por lá é porque tem alma de chumbo! E só para terminar ainda estou tentando descobrir porque amanheci com dinheiro dentro do sutiã. tsctscstsctsc….

PS* Lembrei: eu mesma coloquei para não ficar segurando na mão. Afinal, para dançar ao som de Martnalia não é possível ficar com as mãos ocupadas!

Uma viagem ao meio do mundo

Esta última semana no Equador me apresentou uma cultura rica, que vale a pena ser conhecida com profundidade. Infelizmente, o tempo não me permitiu conhecer Galápagos, mas só a capital Quito, que tem mais de 4 mil Km2, já é impossível de conhecer em uma semana.

Estava participando de uma conferência, mas de toda forma, o pouco tempo livre para desbravar o meio do mundo foi suficiente para fazer nascer um encanto pelo povo equatoriano extremamente cortês.

A região é muita alta, o que causa inícios de vertigens constantes. Mas nada que um chá de coca não resolva. A cidade de Quito é rodeada de vulcões. A paisagem é deslumbrante sempre.

Como quase toda capital latino-americana, há desigualdade e concentração de renda. Em 2000 o país adotou o dólar como moeda oficial, o que para alguns foi o pior dos mundos, pois com a moeda foi-se também parte da identidade. Para outros (conversar com taxistas é sempre bom) foi o que renovou a economia do país, que agora utiliza moeda internacional e tem facilidades no mercado externo por isso.

Estava no Equador justamente quando se comemora o “Día de los muertos”, ocasião digna de grande comemoração. Pãezinhos com formato de corpos, os “Guaguas de pan” são acompanhados de “colada morada”, uma bebida muito forte à base de frutas vermelhas. Guaguas em quéchua, a língua original do país, significa criança pequena.

As famílias levam este cardápio para os cemitérios, e lá conversam com seus entes queridos falecidos, levam dança e música e contam sobre os últimos acontecimentos da família. É uma festa linda e sensível, que merece respeito.

Mas um passeio muito marcante foi a ida ao povoado de Otavalo, a 95 km de Quito, nas altas montanhas ao norte. Lá é possível ver a essência cultural do país, visto que é formado por comunidades de artesãos. Um mar de artesanato e artistas distribuídos por toda uma região que leva praticamente o dia todo para conhecer, ainda que superficialmente.

O modo de produção mantém as origens e os ensinamentos dos antepassados. O processo começa na criação de ovelhas, depois segue para a tosa, o tingimento à base de elementos retirados diretamente da natureza, até chegar ao tear mecânico.

É uma grande emoção ver os artesãos trabalhando ao tear, com a dedicação e concentração que este tipo de produção carece. As vestimentas também são características, independentemente da idade, e são lindas. Neste povoado há muitas crianças, sempre. E elas ficam livres, caminhando de um lado para outro sem parecer se preocupar nada.

Quase que não foi

Depois de um dia mais que cansativo em terra diferente e quente, estava eu indo ao Estádio José do Rego Maciel, para assistir a seleção brasileira de futebol. Uma partida pela fase eliminatória da Copa do Mundo contra o Paraguai, em Recife,Pernambuco. Nada seria mais enlouquecedor que um mar de gente seguindo para o mesmo lugar na mesma hora, com a mesma emoção no coração.
O calor, a chuva e as noites anteriores mal dormidas não foram suficientes para inibir a empolgação de ver a seleção pela primeira vez. O Hino Nacional tem seu lugar de destaque, com uma execução orquestrada ao vivo. Em seguida o Hino Nacional do Paraguai e depois bola no campo.
A platéia feminina histérica gritava pelo Kaká sem cerimônia. Bastava Kaká ficar perto da bola (ou nem isso) para parecer que só havia mulheres naquele estádio. E ele não parecia ficar “aperreado”. E Robinho passou muitos sustos também. Como não entendo nada de futebol replico neste relato as observações dos colegas que me acompanhavam. Eles disseram que o juiz estava realmente muito brando, e que, de certa forma, estava puxando a sardinha para o Paraguai.Mas isso não foi problema, mesmo depois do gol do país vizinho. Logo antes do final do segundo tempo o Brasil empatou para o delírio de todas aquelas pessoas. Choveu, Brasil fez outro gol, as pessoas ficaram mais loucas ainda e por fim, acabou. Ah, ainda teve uma briga. Não entendi por que, afinal, todos ali eram brasileiros (com 5% de paraguaios do outro lado do estádio), o que me leva a crer que foi uma briga passional. Não sei como foi, só sei que foi assim.

O suor com chuva, ou a chuva com cheiro de suor se misturaram à brisa, e o cansaço de repente bateu. As três últimas noites, que somaram 11 horas de sono também não ajudavam. Na saída, muitos gritos, cornetas, latas de cerveja voando, e uma multidão de gente caminhando na mesma direção. A cena era como aquele filme que mostra a marcha dos pingüins (se alguém lembrar o nome, por favor, deixe comentário); todo mundo feliz pero de cabeça baixa.

Não sei explicar os detalhes técnicos do jogo; se houve impedimento, quantos escanteios, quantas perdas de bola, etc, mas sei que o Brasil ganhou e que a situação agora está bastante confortável, pois a Argentina não está tão ameaçadora. E eu nem ia ao jogo. Na última hora ganhei um ingresso e fui acompanhando o grupo. Quase que não foi, e valeu a pena.

Natal, chuva, comida, interior e vídeo game

A chuva de fim de ano não permitiu viagem à praia. Então, uma ida ao interior de Minas Gerais caiu muito bem. Comida, chuva, dormir, comida, dormir, chuva, brincar de guitar hero(engenhosidade fenomenal), comida, dormir, filme, chuva, muita chuva, tempestade, ar puro, comida, dormir e chuva.

Mas o melhor disso tudo foi estar junto das pessoas que se ama, e é isso que a !idéia revista deseja para o próximo ano. Que as pessoas possam compartilhar mais a presença daqueles que lhe querem bem.

Um Feliz Natal bem atrasado e um Ano Novo com muita coisa pra fazer acontecer! E se chover muito, sing in the rain!