Arquivo do mês: janeiro 2007

O povo que quer contato e conhecimento

Janaina Goulart

Vitor Correa

A comunidade Kalunga situa-se no município de Cavalcante (GO). Este povoado, remanescente de quilombos, foi formado por escravos fugidios dos trabalhos forçados e dos maus tratos sofridos nos garimpos, em especial na mina de Boa Vista. “Muitos foram pegos, mortos e condenados, outros foram marginalizados e muitos conseguiram”, afirmou a Dra. Dione Moura, relatora do Projeto de Cotas para Negros da Universidade de Brasília.
Os Kalungas se organizaram nos locais mais distantes da Chapada dos Veadeiros, entre morros, vales, rios e mata virgem do cerrado, onde habitavam índios de diferentes tribos (Xavantes, Caiapó, Acroá, entre outros), também refugiados. Isto a partir de 1.722. “A gente tem mais é que admirar, ouvir, aprender com essas comunidades. Era uma situação de resistência para não viver sob o açoite e os castigos. É um ato de vitória. Devia ter um dia nacional dos quilombolas”, continuou Dione.
O contato com a urbanização começou em 1.982, por meio de pesquisas realizadas pela antropóloga Mari Baiocchi, da Universidade Federal de Goiás (UFG), que resultaram, em 1999, no livro Kalunga: Povo da Terra, e chamaram a atenção de autoridades brasileiras, da Unesco/ONU e, também, de entidades de direitos humanos do Canadá.
A ex-professora do Vão do Moleque, povoado Kalunga a 160 km da sede do município, e atualmente secretária do Centro de Atendimento ao Turista (CAT), Rimara Freire, viu histórias incríveis nos três anos de convívio com a comunidade. “Eu tinha uma vizinha lá com aqueles pedaços de pau imenso, que serve pra fazer canoa, e ela não deixava ninguém tirar o pau de lá, por que era onde ela tava marcando quantos anos tinha. Já é falecida, a dona Fulogência. Então ele ficava cheio de riscos, era o jeito dela saber a idade. Ninguém da família sabia ler e escrever”.
Hoje é constante a circulação de veículos na região, seja de turistas a procura de cachoeiras, trilhas ou rapel, de pesquisadores em busca da diversidade da fauna e flora da Chapada, ou, ainda, cidadãos interessados em conhecer a comunidade.
No povoado Kalunga do Engenho II, a 31 Km da cidade de Cavalcante, este contato é mais intenso. A instalação de energia elétrica e água encanada são exemplos disso. Lá, a escola Joselina Francisco Maia, oferece ensino para adultos e crianças. Núlia, 29, professora do Telecurso 2000 para adultos e de 5ª e 6ª séries para crianças, disse que todos os dias estuda e aprende muito com as aulas. “Muitos deles querem falar inglês, para atender turistas. Eles são muito interessados, mas o que eles vêem nas aulas pelos vídeos, não tem haver com o mundo deles. A aula de português acaba virando Estudos Sociais. Eles querem muito conhecer o mundo”.

Educação
Jorge Moreira, 36, aluno de Núlia, voltou a estudar por meio do Telecurso. Aos dezesseis anos deixou a sala de aula, assim que concluiu a 2ª série. A morte da mãe foi a principal razão. “Larguei para trabalhar na roça e sustentar a família”. Hoje, 20 anos depois, freqüenta a escola aos fins de semana e desabafa: “Sei que não vou passar nas provas e nem receber o certificado. Estudo por que gosto”. Levantou da cadeira e estufou o peito, o que destacou a camiseta do curso. Em seguida, retirou o livro de Português da pasta e o mostrou sorridente. As vídeo-aulas equivalem às 5ª e 6ª séries. Para ser aprovado, precisaria do diploma e conhecimentos da 3ª e 4ª, que não estão disponíveis na comunidade para adultos.
As crianças têm acompanhamento até o sexto ano. Na casa da professora Dorotéia, onde é comum a presença delas, Jeová, 10, Rafael, 9, Edivam, 8, Viviane, 8, e Vonei, 7, brincam com bolinhas de gude. O futebol é preferência dos meninos, já as meninas gostam de montar casinhas. “Gosto de todas as matérias. Quando eu crescer quero dar aula pra crianças”, planeja, com expectativa, Viviane. Jeová já prefere Ciências e descreve, de cor, o sistema solar.
Para continuar na escola, após a 6ª série, as crianças têm duas alternativas: abandonar os estudos ou a comunidade. Jorge, sete filhos, prefere a última: “Meus filho vai terminar o estudo fora, mesmo com o preconceito”.

Discriminação
Rimara Freire acredita que parte da discriminação existente – minoria na cidade – se deve ao fato do governo dar preferência aos Kalungas nos Planos Sociais, como Cheque Moradia, Renda Minha e Bolsa Escola. “Eles são cadastrados, e se sobrar vagas, a população da cidade pode se cadastrar também”. Ela fala emocionada do tempo que viveu no Vão do Moleque e tem saudades. Deixou a família, duas filhas pequenas e esposo. O começo, em 1.988, foi complicado: “Foi na época que ia decidir se mantinha a república ou monarquia. Eles ouvem muito rádio e ficava passando toda hora. Quando eu cheguei pra dar aula eles incucaram que ia voltar a ser rei e rainha, e que eu tava indo lá pra contar quantos escravos tinha. Eu consegui, num prazo de três meses, fazer oito matrículas. Tem um lugar lá que chama coco, e quando eu chegava não aparecia nem um cachorro. Tinha panela quente no fogão, as portas abertas, mas não aparecia ninguém. Eu vivia lá do jeito que eles viviam, fumava fumo de rolo”.
A ex-professora destaca ainda: “Muita gente fala que kalungueiro só quer coisa do governo, não quer trabalhar mais. Põe um monte de defeito, sabe? Mas essas pessoas que fazem, que falam isso não conhecem a realidade deles lá dentro, não sabe o que eles passam, como viveram a vida toda”.
Com a liberação dos auxílios do governo, foi definido a aposentadoria para homens com idade superior a 60 anos e para mulheres acima de 55. Esta é uma das rendas da família de Jorge, recebida por seu pai. As outras são a Bolsa Escola, na quantia de R$ 30, equivalente a dois filhos que estudam, e a Renda Minha, no valor do salário mínimo. Ao todo são R$ 550 por mês. “Não queremos o dinheiro do governo. Queremos oportunidade de trabalhar e estudar”, irritou-se Jorge, acrescentando que a verba destinada à comunidade é para a alimentação, visto que o plantio não supri mais as necessidades.
Certa vez uma senhora negra residente no meio rural, conta Rimara, foi à cidade procurá-la: “É ocê que tá mexendo com negócio de Kalunga? O povo disse que tem que caçá ocê. É por que eu sou preta, sou lá do Rio Preto, mas eu vim pra cá que eu quero cadastrá, que eu sou preta, eu quero ser Kalunga também”. Rimara espantada: “Pra que senhora?” A resposta veio naturalmente: “É que eu quero ganhar cesta, eu vim cadastrá”.
Jorge recebeu o Cheque Moradia, programa nacional de habitação do governo, no valor de R$ 1.5 mil em materiais de construção, e mostra feliz parte da casa que reformou. Substituiu a parede de adobe – barro e madeira – por tijolos e cimento, e o telhado de palha por telhas, mas deixou a cozinha no padrão antigo. “A palha é mais fresquinha”.
O pai de Jorge, Pedro dos Santos, 105, está muito doente. “É velhice”. Não quis muita conversa, e Jorge foi contar de quando precisaram fazer os documentos dele. “Não tinha registro e quando começaram a liberar a aposentadoria ele precisou de documento. Mas na Secretaria, não puderam fazer nada, então disseram que só o juiz podia autorizar. Como ele não tinha nada que comprovasse a idade, o juiz colocou que ele tem 85 anos, mas tem mais, bem mais…”
Em 1.997, o Governo do Estado de Goiás, doou à comunidade uma caminhonete para socorrer os doentes. Jorge lembra que o presidente da Associação de moradores passou a utilizá-la para outros fins, até que o motor fundiu. “Ficava muito caro consertar, aí a gente vendeu”. Em 2.003, compraram uma caminhonete C10 usada.
“O meu maior sonho é tirar carteira de motorista”. Quando precisou socorrer uma senhora, Jorge, uma das poucas pessoas que “rola roda” (dirige) na comunidade, foi socorrê-la e teve que levar pessoas na carroceria. “Quando chegamos na cidade, me dedaram para a PM que correu atrás de mim na volta. Corri demais até perder de vista. Aqui é assim, eles querem todo mundo a pé, todo mundo de cara pra riba”.
O atual responsável pelo veículo é o representante do povoado, Cirilo dos Santos. “Antigamente, o povo ia para a Bahia comprar e trocar as produções”. Cavalcante nem existia. Trinta dias a cavalo completava a viagem. Era carne seca e couro por sal e pano”.
“Nós somos hoje a terceira geração”. Os negros vieram da costa ocidental africana e da região de Moçambique, portanto, de diferentes nações, com crenças, costumes e idiomas próprios. Mesmo assim se organizaram e acabaram se relacionando com os índios. O contato entre esses povos foi difícil: ambos fugiam da repressão portuguesa, por isso o receio. O medo da escravidão era recíproco. Com o tempo, as semelhanças apareceram e o convívio tornou-se tranqüilo.
O representante avaliou que a troca de experiências foi positiva, apesar dos conflitos. “Os índios já estavam aqui. A gente aprendeu muita coisa com eles. Eles faziam malinezas (maldades), mas curavam as doenças com as plantas”. Essas malinezas são do início do povoamento Kalunga. Diz-se na região que os nativos pegavam crianças Kalungas e sumiam com elas. Voltavam depois de muitos dias, além de ficarem espionando a comunidade o tempo todo.

Propriedade das terras
Como o território era imenso, e não havia proprietários, as famílias Kalungas distribuíram-se com largueza. Ainda hoje é assim. São quatro núcleos: região da Contenda e Vão do Calunga, Vão do Moleque, Vão de Almas e Ribeirão dos Bois, situados entre os municípios de Cavalcante, Teresina de Goiás e Monte Alegre de Goiás. Atraídos pela mineração e pelas terras férteis, muitos garimpeiros e agricultores também ocuparam o local. “Hoje nosso maior problema são os fazendeiros, que já tomaram a terra quase toda. A gente tá imprensado, mas vamos fazer manifestação. Não sobra terra pra plantar, e aqui a gente planta tudo, menos soja e trigo. Hoje eu tô desacreditado. O presidente veio aqui e prometeu que o INCRA ia desapropriar terras para nós, mas não fez nada ainda”, comentou Cirilo.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um comício na comunidade, assim que foi eleito, e prometeu indenizar os fazendeiros, sendo as terras entregues definitivamente aos Kalungas. Inaugurou também a energia elétrica no Engenho II. Não há quem não fale do incidente. “O presidente prometeu dois anos de graça e um mês depois chegou a conta da CELG (Companhia Energética de Goiás), mas quase ninguém tem dinheiro para pagar”, reclamou o representante. Getúlia, esposa de Cirilo, também se queixa. “Prometeram postes (de iluminação púbica) e orelhão. Política é bandidagem.”
Na última eleição em Cavalcante, onde moram 9.150 pessoas, foi eleito Felipe (PMDB), que governará a cidade pela terceira vez. “O prefeito que vai assumir em 2005 é racista, não gosta dos Kalunga, e ainda por cima é mudo”. Segundo Cirilo, o atual prefeito, Eduardo (PSDB), trouxe o transporte e a estrada, que está funcionando há três anos. Além disso, instaurou os Planos Sociais. Uma vez por mês, o ônibus vai buscá-los para receberem os auxílios na cidade.
Com a abertura da estrada, o turismo aumentou, principalmente pelas cachoeiras da região, e Cirilo tornou-se o responsável pelo recebimento do dinheiro que os turistas pagam para chegarem até lá. São R$ 5 por pessoa. Jorge Moreira diz que não sabe o que acontece com o dinheiro recebido. “Eu mesmo nunca vi”, disse receoso.
Filin, 20, não diz o verdadeiro nome, pois acha feio. Ele acompanha os turistas até às cachoeiras. “Eu queria ser jogador de futebol, mas já passei da idade”. Meu time é Flamengo, escuto o jogo no rádio”. Conta que sua avó, Dona Joana, passou por uma situação complicada há cerca de 35 anos. Houve uma série de ataques de grupos armados na Comunidade. Eles saqueavam tudo que viam, acabavam com a comida, roubavam e atiravam. Grande parte da comunidade correu amedrontada e se escondeu nas pedras. Ficaram lá por três semanas, muitos adoeceram e alguns morreram. Joana sobreviveu. Hoje ela tem 109 anos e é a Kalunga mais antiga do Engenho. Fica a dúvida em relação à origem desses grupos. Os anos coincidem com a ditadura, mas ninguém jamais falou a respeito na época.

Religião
No Engenho II, segue-se o catolicismo. O padre vai até lá uma vez ao mês para realizar a missa. A igreja, por enquanto, é um barracão sem paredes com sustentação de madeira e telhado de palha. Cirilo discute com a comunidade a possibilidade de se construir uma igreja de tijolos. Para isso, a idéia é que cada família disponha de uma parte do Cheque Moradia para esse fim. “Tem um homem de Cavalcante que trouxe uma igreja de crente, mas não é bem vista aqui não”.
Os casamentos são realizados uma vez ao ano, juntamente com as festas religiosas no mês de Junho. “Pra casar, primeiro tem que gostar, e depois a gente vê a procedência dele ou dela. É bom que seja virgem os dois, mas se não for não tem problema. Agora diferença grande de idade não é bom não, é ruim para o casal. Nem mocinha com homem velho, nem mulher dona da pessoa (adulta) com moço novo”. Ao insistir no porque desse pensamento Cirilo deixa passar: “É preconceito mesmo”.
Ele é casado pela segunda vez. Sua esposa, Dona Getúlia, também. Juntos têm onze filhos. “Tem uma que tá em Goiânia estudando para entrar na Aeronáutica”. A casa não pára. As mulheres ficam na cozinha preparando comida enquanto tiver turista chegando. A cada grupo, fazem tudo novo. Getúlia e as três filhas trabalham num ritmo apertado. “Natália olha o macarrão. Evânia descasca a cebola rápido”. As filhas obedecem sem retrucar e em meio a tanto trabalho, sobra algum momento para dar risadas.
A filha caçula, Evânia, 12, é reservada. Seu grande sonho é morar sozinha. “Queria ser secretária. Não quero casar nem ter filhos”. Ela adora escrever. Para se divertir, não há muitas opções: “A gente panha umas frutas, visita alguém doente…” Santana, a filha mais velha em casa, tem um bebê de três meses. O pai não assumiu e ela reclama: “Nem quis registrar”. Viveu em Águas Lindas de Goiás e lá engravidou. No parto, preferiu voltar para casa.
Dona Getúlia é parteira, mas sobre isso ela logo avisa: “A gente tem alguns segredos que não podem falar”. Mas alguns procedimentos revela: “Chás e caldos naturais para dar força à mulher. Na hora do parto, corta o cordão umbilical com tesoura, e queima a ponta com colher em brasa (cicatrização). Eu não confio em hospitais, todos os meus filhos nasceram em casa, menos um que foi cesariana”. Ela lembra de um caso infeliz: “Uma vez, sozinha, fiz um parto de gêmeos. Nasceram bem, mas prematuros, de seis meses e morreram. Na verdade, a gente não é parteira, só acompanhante, quem pari é Nossa Senhora. Tem que ter coragem pra fazer parto. Fazemos pré-natal, mas parir, só aqui mesmo”.
Rimara conta também, a primeira experiência como parteira. Foi chamada para ajudar e não sabia o que fazer: “Elas tomam água fervida com pimenta pra sair mais rápido”. Após o parto as mulheres ficavam 40 dias sem tomar banho se for homem, por que é mais custoso e 30 dias se for mulher. “Hoje elas já conscientizaram, mas não lavam a cabeça”.
Nos livros existem diversos significados para a palavra Kalunga: desde ratinho insignificante a grandeza e poder do Oceano. Cirilo já prefere denominar “povo que quer contato e conhecimento”.

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