Tacadas intolerantes

Estava eu tentando ter um mínimo de concentração na tacada quando o Luizão (não que ele seja grande) chegou. Portava o seu habitual cigarro com cigarreira e aquela blusa azul que parece já fazer parte do corpo. E claro, ao entrar no bar sussurrou em níveis decibéticos “ÓIA O ARRASTÃO ÓIA O ARRASTÃO!!!!!!”. O taco voou, as bolas se mexeram todas na mesa de bilhar e eu dei um pulo.
Ai, a brincadeira de mau gosto somada ao mau humor em que me encontrava foram suficientes para fazer brotar em mim a mais estúpida das mulheres, também em níveis decibéticos: “Escuta aqui criatura ignorante cheirando a cigarro. Eu não quero mais ouvir os seus gritos semanais com essa risada abominável ao final como se todos estivessem achando graça e não quero mais suportar sua cara oleosa com todas essas manchas (sei lá o que é isso, cruzes). Proponho um acordo baseado em uma rodada. Se você ganhar, eu até mudo do bairro; se eu ganhar você nunca mais aparece aqui se eu estiver (o aqui é o Bar do Teotônio)”.
Pois bem, ele topou. E confesso que achei muito estranho, pois é do conhecimento de todos que sou uma das melhores jogadoras de bilhar do bairro (até com direito a prêmio) e ele não é lá essas coisas… Mas por mim, ótimo! Assim teria um pouco de paz para os próximos meses. Digo isso porque é lógico que passado algum tempo, ele vai quebrar o acordo e voltar a perturbar.
Começou a partida. Escolhi o melhor taco, passei o giz. Escolhi a mesa do lado que é mais plana e nisso o público do bar ia crescendo. Até as fofoqueiras que não costumavam freqüentar o ambiente resolveram espiar o que se passava.
Dei a tacada inicial e logo uma bola par foi para baixo. Comecei bem. No segundo lance mandei uma bola 2 também. Na terceira, errei. Lá vai Luizão. Não sou intolerante, mas devo confessar que naquele dia eu nem era humana. Estava me sentindo um bicho com raiva e muitos dentes prontos para atacar. Meu chefe é um estúpido e me aporrinhou o dia inteiro. Quase mandei ele ir…, mas na hora o juízo (o restinho dele) falou mais alto.
Pensava nisso enquanto o Luizão se decidia onde ia fazer a jogada, depois de dar duas voltas na mesa… De repente começaram algumas manifestações inibidas de torcida. Dei uma risadinha como quem está gostando, mas que no fundo queria mandar todo mundo calar a boca também. Só Deus sabe a quantidade de palavrões absurdos se passavam na minha cabeça.
Enfim, a tacada de Luizão. Não acertou, mas deixou o 5 bem perto da boca. Acertei o 6 e errei em seguida. E dá-lhe Luizão, errou. Errei. Errou. Errei. Acertou a 5 (finalmente!) e minha cabeça já estava explodindo. Quem meu chefe pensa que é? Não sou obrigada a lembrar dos compromissos pessoais dele. Agora vem dizer que não sabe o que estou fazendo na empresa até hoje porque perdeu a reunião de pais e mestres da Andresa? Ele é um boçal.
A partir disso comecei a errar todas e Luizão foi tomando a frente. Quando vi restavam só duas pra ele e eu ainda tinha todo o resto para matar. Pela primeira vez desisti de um jogo. Entreguei os pontos. Pensei se não seria mais fácil eu trocar de trabalho que mudar de bairro e perder a amizade do Luizão. Que isso, Luizão, gente fina, amigo de todo mundo. Nem reagiu às minhas agressões e ainda me deu um abraço no final.É, ignorante é meu chefe. Luizão jamais faria comigo o que ele fez. Vou pedir emprego ao Luizão, que é dono de uma entregadora de gás.

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