O vizinho esporádico II

Para quem não leu a apresentação deste ilustre camarada é importante clicar aqui.

Hoje o vizinho esporádico cujo nome ainda não descobri mesmo tendo nosotros quase 5 anos de convivência está dissecando o repertório do Stevie Wonder. Nada eu teria contra este fabuloso cantor e muito menos contra meu vizinho, mas acontece que são 3 da manhã e juro que se não tivesse que trabalhar amanhã, até desceria para apreciá-lo mais de perto (se bem que os pulmões dele têm capacidade de ressoar em várias quadras próximas).

Acho que nossa relação está desgastada, e creio que o barulho que ele está fazendo contribui de alguma forma para este desgaste. Bem, enquanto ele faz malabarismos com o idioma inglês posso contar um pouco do dia dele.

Pela manhã dormia na calçada como um bebê em um colchão de verdade (não me perguntem como ele conseguiu) acompanhado de outros três amigos e acredite-me: estavam no mesmo colchão. Quando acordou começou a esbravejar todas as pragas possíveis e a xingar até os pombos que estavam por perto.

Algum tempo depois comprou um pão na padaria do outro lado da rua e implicou com algumas crianças que estavam a caçoar dele. Voltou para o outro lado, comeu o pão, resmungou, e começou a via crucis diária. Atravessou a rua novamente, dessa vez rumo ao bar que fica ao lado da padaria e comprou uma cachaça daquelas de vidro pequeno, uma Coca-Cola e um abacaxi. Esta eu já sei que é sua fruta favorita.

Após a mistura fatal ele tira não sei de onde um par de óculos escuros estilo Marilin Monroe(ele já havia feito isso antes) e começa a dançar um tango-valsa-salsa-merengue-lambada. Depende do que ele escolhe cantar para produzir o ritmo. É uma outra pessoa.

Em seguida, alguém o aborreceu. Perdi essa parte, mas pelo humor com que ele ficou de repente, aposto na implicância de alguém que estava por ali. Ele é muito sensível a críticas. Daí até a hora do almoço foram só farpas. Algumas que nem posso escrever aqui devido ao grau de esculhambação.

Quando passa a raiva, ele sempre senta com os pés na rua, o bumbum na calçada e os cotovelos entre as pernas. Acho que é assim que ele reflete durante a loucura. Às duas da tarde o vidrinho de cachaça já estava seco. O abacaxi continuava lá.

Uns momentos a mais e ele aparece com uma marmitex. Come e dorme. Agora o silêncio toma conta deste domingo de fim de feriado. O barulho só volta quando ele acorda às 7 da noite pronto para a noitada que me tira o sono pré segunda-feira.

Ouço algumas coisas do tipo “meu bem, meu zen, meu mal”, ou “sei-lá-alguma-coisa-em-inglês” ou mesmo “ela me deixou”. Continuo não sabendo do que ele sofre, mas sei de como ele tem procurado escapar. A cada temporada deste vizinho na quadra ao lado, ele me parece menor. Como se estivesse murchando aos poucos. Um dia conversarei com ele.

Mas enquanto isso é Stevie Wonder quem embala minha insônia…

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