como la cigarra

Manu Carvalho

esmagada. asas abertas. lá estava a cigarra, enfeitando sutilmente a escada do coletivo. logo ela, que há pouco movimentara um bocado as patas na tentativa de alcançar o solo novamente, se ver livre daqueles degraus, voar pr’algum lugar distante dali e fazer uma serenata. naquele momento, aquela cigarra era eu. eu, que ao observar o movimento de suas patas a cada freada brusca sentia a mesma vontade de girar, de driblar aquele sacrifício que é tentar. e aquilo já era sofrimento demais. principalmente porque meu medo covarde de cooperar com a façanha era maior que a própria cigarra. ao mesmo tempo, mentalmente, pedia que não ousasse me ferir, como se ela fosse maior que eu. mas era tarde e eu já sabia demais o que era aquele sentimento de se estar emborcado. a vontade de voar, o medo da morte, a luta anônima, pequena e solitária da cigarra me excitavam como um jogo e, ao mesmo tempo, me causava asco. o que pensava a cigarra? no egoísmo que lhe devora a carne? na lança do medo que lhe fere? na expectativa que lhe frustra? na ansiedade que lhe destrói? eu não queria estar ali. nem ela. mas nós já éramos uma só naquela escada. e meus olhos fixos no refletor com as asas por baixo previam nosso fim, quando a porta se abriu e fui pisoteada também. esmagada. as asas abertas. lá estava eu, enfeitando sutilmente a escada. logo eu, que há pouco me movimentei um bocado na tentativa de alcançar o solo novamente, me ver livre daqueles degraus, voar pr’algum lugar distante dali e fazer uma serenata.

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