Diários de Havana

O jornalista André Deak está passando uma temporada em Cuba, justamente neste momento histórico:

André Deak

Foi só no dia seguinte ao anúncio de Fidel de que não pretendia mais assumir nenhum cargo no governo que percebi o impacto que isso causou no mundo. Até porque, em Cuba, o impacto foi mínimo. Isso já era mais do que esperado.

Eu e outro amigo jornalista ficamos discutindo se seria o caso de chamar isso de momento histórico ou não. É assim que os jornais pelo mundo estão construindo o imaginário coletivo e a própria história. Mas nos parece, afinal, apenas mais um elemento de um processo histórico, e não algo capaz de afetar a vida de um cubano comum, nem um giro na política nacional. Não se trata da queda do muro de Berlim nem a Perestroika. O socialismo de Cuba, por mais que muitos gostariam que isso fosse verdade, não depende de Fidel.

É interessante, por exemplo, ver a construção semântica da imprensa. Reli o texto de Fidel e li os jornais do dia seguinte, a procurar se havia a palavra renúncia. Não. Fidel já não estava no poder (o que não quer dizer que não tinha poder, mas já não participava, certamente, de muitas decisões do governo). Ao utilizar a palavra renúncia, a impressão que se cria é a de que ele estava na cadeira de presidente – formal ou informalmente – e abandonou o cargo. Nada mais falso.

Tenho a impressão de que os jornais haviam preparado um extenso material especial para a morte de Fidel. Isso é prática comum nas redações – alguém famoso anuncia que está doente e já montam galerias de fotos, biografia, separam telefones de gente que possa dar entrevistas. Só que o Fidel, que sobreviveu a mais de 600 tentativas de assassinato, não é fácil. Atrapalhou os planos dos jornalistas. Com esse material preparado, os jornais aproveitaram o primeiro factóide – a “renúncia” – para soltar esses especiais, dando ao fato um tamanho desproporcional ao seu significado.

Daqui de dentro, a mensagem me pareceu uma estratégia astuta de Fidel – e apenas isso. Ele sai de cena de uma maneira suave, sem crise, sem mágoa, sem drama. Deixa praticamente livre o espaço para Raul Castro ser eleito no dia 24, sem nenhum constrangimento de que ele não seja reconduzido. Também prepara, psicologicamente, o povo cubano para o que está por vir – aí sim, um momento impactante para a vida do cidadão. Cidadão que, nem sempre se identifica como comunista, mas se sente fidelista.

Fidel é cativante, mesmo para aqueles que não gostam dele. Me disseram que o povo cubano ficou comovido por três vezes a respeito de Fidel: quando passou mal num discurso e desmaiou (não tinha comido nem dormido, e depois voltou para terminar o discurso); quando quebrou a perna; e quando se soube de sua doença. Fidel é um ser mitológico. Sua morte não será a queda do muro de Berlim, nem o fim do socialismo em Cuba. E agora será menos simbólica e causará menos impacto político do que se ele estivesse no cenário do poder. E ele sabe disso.

http://www.andredeak.com.br/

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