Beijo de novela

Josefa fica olhando a TV com a cara torta, fazendo bicos e tremendo os lábios. A luz apagada da sala deixa só o reflexo azul da caixa reluzente. A louça do jantar já está lavada e seu pai já foi dormir. A mãe, falecida, faz muita falta; principalmente nessa fase. Josefa está com 16 anos e completa 17 no mês que vem.

Começa a novela. Continuando o capítulo anterior, hoje será um dia de grandes emoções. Josefa, catatônica, acompanha o beijo do casal principal como se estivesse no meio deles. O coração dispara, vem um frio na barriga, e depois que passa a cena ela se debruça no sofá e continua a pensar no seu grande problema de adolescente: vai fazer 17 anos e nunca foi beijada.

Não que o mundo se importe, mas todas as amigas do colégio já passaram por este rito de passagem e isso faz com que Josefa comece a imaginar se tem alguma coisa errada. “Sou feia?”, “Sou chata?”, “Sou burra?”, “Qual o meu problema?”

Fica horas na frente do espelho procurando defeitos, faz simpatias, faz promessas, faz dietas, tenta ficar na moda, mas nas festinhas da turma, nenhum garoto se aproxima. E volta para casa de ombros caídos e olhos para o chão.

O pai tá preocupado. A menina não come, vai mal nos estudos e não quer saber mais de ajudar em casa. Fica o dia todo trancado no quarto olhando para o teto e escutando repetidamenteLike a Virgin, da Madonna… Tempos modernos, mas nem tanto.

E como dizia a velha história:
“O pai leva ao doutor a menina adoentada;
Não come, nem estuda;
Não dorme, nem quer nada”.

E eis que o doutor diz o que já se esperava. Chama o pai de lado e diz que o mal é da idade e que o único remédio é dar tempo ao tempo… O pai se preocupa e conversa com a filha, que encabulada, abre o jogo com o velho. “Ninguém quer me beijar, ninguém me tira pra dançar, eu não agüento mais, todas as minhas amigas já deram o primeiro beijo e ninguém se interessa por mim, o que tem de errado comigo pai?”

Nesse momento, depois dele ter se arrependido amargamente da pergunta, engole seco e tenta achar algum conforto para a menina. “Minha filha, vai chegar a sua vez, e quando chegar você vai saber.” Bateu com a mão no ombro, desconversou e foi para o quarto.

A menina ficou na sala, sozinha, desassistida e sem entender o apoio psicológico paterno. E agora vai começar a novela. Ela vai assistir, o coração vai palpitar e depois vai dormir pensando em quando vai chegar a sua vez. Deu no mesmo. Viva Luiz Gonzaga!

A ilustração é do quadro O Beijo (1907), do pintor Gustav Klimt.

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