Escolha poder escolher

images

Nasci e vivi até os 18 anos em uma cidade pequena, sob condições financeiras difíceis, em um bairro afastado da cidade. Amo ter podido brincar na rua até tarde livremente, ter tido a “minha árvore”, onde passava muito tempo, amigos que guardo até hoje comigo e passado por experiências que constituem a minha personalidade. Mais da metade da minha vida ainda está lá.

Nunca sofri por não ter dinheiro. Àquela época, por mais que a barra fosse difícil, não fazia diferença; o que me preenchia e me esvaziava estava condicionado aos dias bons e aos dias ruins.

Foi com o passar do tempo, principalmente a partir dos 14 anos, quando comecei a trabalhar, que passei a entender melhor que os meus dias bons e ruins eram definidos em grande parte pelas escolhas que eu fazia – o que eu escolhia dizer, como eu escolhia agir, e porque eu escolhia me calar.

Entretanto, mesmo tendo consciência disso, vivendo em uma cidade com quase nenhuma possibilidade além de trabalhar no comércio ou na agricultura (eu trabalhava num banco), sem uma faculdade na cidade, sem acesso a cultura porque também não se criava muito por lá (tenho a feliz notícia de que isso vem mudando), e sem perspectiva de desenvolver o que eu sempre quis – estudar comunicação.

Sentia que minhas possibilidades eram restritas a um aquário, e eu tinha consciência de que meus dias bons e ruins poderiam continuar assim, mas em uma realidade que me permitisse mais escolhas. Não digo que isto é um ruim, mas sim, que não se adaptava ao que eu queria.

Quando me mudei para Brasília, ainda aos 18, com a ajuda da minha família em zilhões de aspectos, a vida ficou movimentadíssima em termos de escolhas. Nunca tive que escolher tanto, e de repente, a falta de dinheiro era uma coisa que realmente afetava a minha vida. Sem ele, eu nem podia me locomover.

Daí tive que aprimorar minhas habilidades em eleger o que era mais importante para a sobrevivência, e pensava que este era o caminho mais lógico. Isto significava me submeter a estúpidas cargas de trabalho, e ainda fazendo trabalhos como free-lancer, desde assistência técnica em computadores (pois é…) até diagramação de monografias, e todas aquelas coisas que se pode fazer enquanto não se conclui a graduação.

Dias longos, cansaço. Mas até aí tudo bem, porque conseguia manter a minha tão sonhada faculdade em jornalismo. E na sala os professores batiam em nossas cabeças todos os dias: “Se vocês estão buscando dinheiro na vida, abandonem este curso enquanto é tempo”. Alguns tinham essa coisa fatalista (geralmente aqueles que saíram frustrados das redações).

Mas não era o dinheiro que eu estava buscando. Era a “possibilidade”. Em uma cidade cheia de possibilidades, comparando-se com minha terra natal, as limitações me pareciam muito menores, ainda que a vida fosse mais dura. Eu acredito que a possibilidade, o poder realizar, não está no dinheiro ou na falta dele, mas na habilidade em superar isso, e de enxergar na sua própria capacidade, aliada ao esforço e à experiência, de fazer escolhas cada vez mais edificantes, no universo pessoal e profissional.

Um dia, numa festa de fim de ano no trabalho, meu então chefe me escreveu um cartãozinho assim, que hoje vejo o quanto está amarelinho:

Janaina,

[…] Somos consequências das escolhas que fazemos. Que em 2006 você tenha discernimento e determinação para fazer as melhores escolhas: ser mais feliz, mais saudável, mais tolerante… E, acima de tudo, que você escolha poder escolher! Tudo de bom para você e toda a sua família!

Feliz Natal e um SUPER 2006!”

QUE VOCÊ ESCOLHA PODER ESCOLHER! Fiquei perplexa com aquele desejo, que me pareceu tão sincero. E abriu-se ali um leque na minha existência. Meu desafio pessoal agora era não apenas escolher, mas fazer escolhas que me permitissem sempre ter condições de continuar podendo escolher. Isso é fantástico, porque, por mais simples que possa parecer, escrito da forma como está, muitas vezes fazemos escolhas que nos prendem a certas realidades indesejadas, talvez sem perceber.

São pequenas armadilhas, dos dias bons e dias ruins, que recaem sobre nossos ombros. E escolhas, não precisam ser necessariamente dolorosas, mas sim conscientes e desapegadas do que não se está escolhendo naquele momento. Talvez simplesmente não seja o momento, porque cada dia é uma construção. Se eu faço uma escolha agora; faço pensando nas escolhas futuras, mas também pensando em tudo o que esta escolha poderá criar em possibilidades para uma vida mais feliz. Posso dizer que minha vida mudou drasticamente para melhor quando passei a ter mais consciência sobre isto.

Escolha poder escolher sempre! Isto é o que costumo desejar às pessoas que mais quero bem.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s